Ciente do apego do Lapeano com o “seu lugar”, o conceito escolhido para subsidiar as propostas de intervenção foi a “Criação de Lugares”. A ideia é que, a partir dos desejos, usos, sensações e potenciais de um local, seja possível criar espaços públicos que promovam o bem-estar social, para que as pessoas possam desfrutar a vida nas cidades.
Para isso, a metodologia utilizada considerou a combinação das informações do diagnóstico da Área 40 da Lapa – que contou com dados técnicos e subjetivos – e com uma vistoria em campo, que resultou numa avaliação pontual e coletiva de cada um dos espaços apresentados pelo diagnóstico, baseada num conjunto de critérios intuitivos e qualitativos, representados por uma “Roseta”.
A “Roseta” se divide em 4 quadrantes, que possuem adjetivos específicos vinculados a eles. A avaliação da área consistia em olhar a região por suas características individuais, positiva ou negativamente. As pétalas maiores ou menores vão indicar as potencialidades ou fragilidades do lugar, a fim de direcionar a elaboração das propostas de intervenção. Assim, quanto maior a pétala, mais evidente é a caraterística. Em uma análise das pétalas no conjunto do seu quadrante, quanto mais equilibrada for a roseta, com comprimentos de pétalas ou quadrantes se equivalendo, menos conflitos o lugar apresenta.
Os resultados apresentados a seguir consideraram a pontuação de todos os adjetivos do diagrama para análise geral da área de intervenção.
ÁREA 40 DA LAPA
Reforçando as noções preliminares, os adjetivos conectada, diversificada e ativa receberam pontuação alta, enquanto os relacionados às condições de conforto e visuais quase não pontuaram, evidenciando a necessidade de transformar os percursos em experiências mais prazerosas. Assim, a resposta projetual buscou compatibilizar os diversos fluxos, focando na caminhabilidade e segurança viária, criando espaços de permanência capazes de acolher outros usos e implantando mobliário urbano que colabora na composição da paisagem local.
PONTOS E SECÇÕES
A interpretação do conjunto das rosetas referentes aos pontos e secções indicadas no diagnóstico apresentou alguns pontos comuns que reforçam o diagnostico geral da área, como a força dos fluxos e a fraqueza das condições de sociabilidade e conforto, dada pela alta pontuação do primeiro quadrante e baixa pontuação dos demais. Os pontos e secções localizados mais ao centro do perímetro de intervenção (A, D, 5 e 8) são os mais equilibrados, enquanto no entorno do Mercado (2 e 3), conectividade e atratividade se equiparam. Destaque também para os mais desequilibrados, os pontos D e E, nós viários que merecidamente tiveram pontuação somente no quesito conectividade.

As transformações propostas para a Fase 02 objetivam trazer para o Presente a Lapa do Futuro, equilibrando condições dicotômicas. As características de eixo de estruturação metropolitano e ao mesmo de centralidade polar, permitem que abrigue tanto o fluxo de passagem quanto o de comércio e serviços aí alocados.
O caráter mais indutivo desta fase, baseada em alterações no uso do solo e na implantação de projetos urbanos e novos equipamentos, considera tanto as premissas do PDE quanto do PDR da Lapa, bem como cenários do Arco Tiête, estabelecendo um plano que persegue o ideal de convivência harmônica e prazerosa do espaço público calcado em três princípios base:
Um urbanismo amigável: a consolidação do sistema de espaços livres
O sistema proposto na Fase 1 articula os espaços livres, como as praças no entorno do Mercado, da Estação Lapa e da futura Estação Água Branca, aos eixos viários e bulevares, também criados na fase 1. A fim de estimular ou afirmar essa condição do espaço público, o uso do solo e a ocupação dos lotes do entorno devem estar associados às características pretendidas para cada situação no interior do bairro, especialmente o incentivo a moradias.
O adensamento residencial pretendido dependerá de estratégias e deverá assumir formas distintas dentro do perímetro da intervenção, sempre, no entanto, regulamentando o uso e ocupação dos lotes lindeiros, de modo a fortalecer e evidenciar a estreita relação entre os espaços públicos e os privados.
Assim, nos lotes lindeiros aos novos calçadões, bulevares e vias amigáveis na porção leste, o adensamento residencial deve assumir a forma de torres residenciais com fachada ativa, enquanto na porção oeste, que já possui alto adensamento construtivo, porém pouquíssimas moradias, deve voltar-se à conversão de imóveis atualmente usados exclusivamente para comércio e serviços em residenciais ou mistos.
Desta forma, a exigência de uma “quota urbanística” – pontuação que deve ser atingida pelo empreendimento, que deve avaliar quanto o empreendimento colabora para uma boa ambiência urbana, como mistura de atividades, adoção de áreas públicas, permeabilidade do térreo, compartilhamento de mobiliário urbano, inclusive estacionamentos de bicicleta, baixa obstrução na paisagem (gabarito e massa edificada) e reduzida oferta de vagas de garagem – para a construção de novas torres residenciais e incentivos fiscais para a conversão de imóveis comerciais em residências e/ou uso misto, induz uma mistura equilibrada e saudável e proporciona a formação de ambientes de bairro “sempre vivos”.
Também ao longo das vias que compõe o binário, busca-se induzir o uso misto nos lotes lindeiros. Contudo, enquanto a rua Clélia possui características semelhantes às da porção oeste da área de intervenção, devendo estar sujeitas a mesma normatização, as ruas Guaicurus e John Harrison são marcadas pela proximidade da linha férrea.
Paisagem urbana lapeana: a integração da orla ferroviária
Apesar da maior parte da orla ferroviária estar fora do perímetro da proposta, induzir transformações na sua forma e uso é vital para consolidação do projeto. Essa área sinaliza um rápido e alto potencial transformador, uma vez que na margem oposta da rua Guaicurus, além de equipamentos urbanos de grande porte, existem galpões desocupados e lotes vazios de grandes proporções.
Dada a necessidade de garantir uma coesão às transformações necessárias nesta área, duas estratégias de planejamento devem ser consideradas: elaboração de projeto de intervenção urbana e exigência de pontuação elevada na avaliação da “quota urbanística” dos empreendimentos propostos ao longo da rua Guaicurus. Já ao longo da rua John Harrison as intervenções no viário e a transformação do muro em paisagem devem ser suficientes para romper a sensação de clausura e reequilibrar o ambiente urbano neste trecho da orla.
Fluxos cotidianos prazerosos: a associação dos modais de transporte nas estações Lapa e Água Branca
Embora esteja situada muito próxima ao centro e abrigue um comércio dinâmico e bastante tradicional, a Lapa é extremidade do sistema de transporte coletivo e porta de entrada da região oeste da cidade. Compatibilizar funções tão antagônicas preservando o espírito e a história do lugar é o grande desafio a ser enfrentado nesse projeto e que em termos “urbanísticos” significa descongestionar sem desconcentrar, ou seja, tornar a região do Mercado e da Rua 12 de Outubro ainda mais atrativas e acessíveis reduzindo o volume de veículos automotores no seu entorno imediato. Meta que exige o redesenho dos trajetos das linhas cujos pontos terminais encontravam-se dispersos pelo bairro, bem como considerar intervenções fora do perímetro do projeto, em especial a futura Estação Água Branca o apoio sul do Arco Tietê.
A ideia é transferir os pontos finais das linhas mencionadas acima para o interior dos Terminais Lapa e Água Branca, fazendo dela a nova extremidade do sistema de transporte coletivo. Portanto, mais do que uma nova estação, propõe-se transformar a futura Estação Água Branca em terminal intermodal, associando às estações de trem e metrô, um terminal de ônibus e edifícios garagem. Assim, tanto no entorno da Estação Lapa quando da Estação Água Branca há zonas de incentivo a construção de edifícios garagem, contudo, enquanto na primeira, estas vagas devem compensar as suprimidas pela reconfiguração do viário, destinadas principalmente ao comércio e serviços, na segunda elas destinam-se aos usuários do transporte coletivo.